![]() |
As facilidades da rede começam a mudar a vida de milhares de pessoas com deficiência no Brasil
Por Ronaldo França (Revista Veja: Edição 1 649 -17/5/2000)
Sem que ninguém se desse conta, a internet, que para a maioria das pessoas representou uma grande transformação, está abrindo as portas de um mundo novo para os deficientes físicos. Graças ao acesso à rede, cegos já podem ler jornais diariamente, surdos conversam com pessoas desconhecidas sem nenhum constrangimento nas salas de bate-papo e paraplégicos fazem as compras de mês do supermercado sem transtorno. Do ponto de vista dos homens comuns, são pequenos avanços. Para quem convive com as limitações do corpo, são enormes distâncias. Mas não é só. O que tem animado essa parcela de brasileiros - até então vivendo à margem numa sociedade de culto à perfeição - é a perspectiva de poder visitar e desfrutar os mesmos endereços e serviços disponíveis à população em geral. Pelo menos no mundo virtual, não são considerados diferentes.
Os que mais têm sentido a diferença são os deficientes visuais. Já há cerca de 1 000 deles navegando na rede. Graças a programas que fazem a leitura dos textos na tela e os transformam em sons, já podem consumir cultura e informação sem problemas. Existem vários programas desse tipo. O mais popular é o DOSVOX, desenvolvido pelo Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pode ser obtido gratuitamente na própria internet e vem com um pacote de dezesseis aplicativos que incluem editores de texto, leitores de telas e navegadores para internet. O pacote mais completo tem, entre outras ferramentas, agenda, processador de textos compatível com os mais usuais do mercado e todos os softwares necessários para um escritório, mas custa cerca de 140 reais. Utilizando esse programa, o estudante Renato Costa, 26 anos, já consegue ler revistas - novidade absoluta em sua vida. Também passou a ler livros nos sites de bibliotecas virtuais. Antes, essa tarefa só era possível quando tinha acesso às poucas edições existentes em braile. "A internet foi um divisor de águas", diz.
Há mais o que comemorar nos avanços permitidos pela rede. Basta imaginar o trabalho que uma pessoa impossibilitada de andar teria para empurrar um carrinho de compras no supermercado. O advogado carioca Geraldo Nogueira, diretor da ONG Centro de Vida Independente (CVI Rio), insistiu, por três anos, em manter um escritório aberto no centro da cidade. "Era uma sucessão de problemas que começava na hora de parar o carro e às vezes não tinha fim", lembra. Fechou as portas e passou a fazer serviços de consultoria jurídica via internet. "Hoje tenho uma perspectiva de ganhos muito maior", diz.
Assim como na vida real -
em que a inadequação das cidades é um transtorno para
os deficientes -, no mundo virtual também são necessários
ajustes. Muitas páginas, bonitas e funcionais para quem pode enxergar,
precisam de adaptações para se adequar aos cegos. De nada
adianta, por exemplo, páginas coalhadas de desenhos se os ícones
não forem acompanhados de palavras que possam ser decodificadas.
Têm de estar escritas letra por letra para que possam ser lidas pelo
programa que as transforma em som. Mas, diferentemente do que acontece
quando a calçada não tem rampas, na internet os problemas
não tiram o bom humor dos portadores de deficientes que, se antes
caminhavam com dificuldade, agora navegam livremente.
Copyright © 2000 IDEAS2000. Todos os direitos reservados.